sábado, 18 de abril de 2009

Caipirinha de Liquidificador

O dia começa agitado.
Bom, nem tanto.
Às 17h começo a trabalhar.
Conheço um pouco da cultura espanhola em família.
Não é tão diferente do que estou acostumada.
A mãe, simples, com um lindo sorriso e um batom nos lábios.
O pai, com as mãos calejadas e um pouco tímido.
A irmã, descontraída e fazendo brincadeiras.
E uma cadelinha "pintcher" latindo forte por toda a casa.
Começamos a cozinhar. Duas latas enormes de leite condensado, margarina e chocolate. E um pouco de arroz.
- Coloco um pouco mais? 
- Ah, não sei, nunca fiz tamanha quantidade!
- Tenta um pouco de maizena!
- Hum, acho que já podemos fazer!
Um pouco de massa na cara e cheiro de azeite queimando.
Começo a fritar os bolinhos de arroz, já que não tenho habilidade pra fazer as bolinhas de chocolate.
O tempo passa, estamos atrasadas.
Ainda tenho que gravar um cd com as fotos, em forma de vídeo, para a festa de hoje a noite.
Corro pra casa, como, tomo banho, me arrumo. E não consigo gravar o cd!
Volto correndo pra casa de Ana, terminamos tudo, gravamos o cd. As músicas já estão prontas.
São muitas e muito boas, animadas. Fiz de coração.
Corremos atrasadas para o bar, alguns chavalitos nos seguem. Ou não.
Chegamos, colocamos as bandeiras, começamos a preparar tudo. 
As pessoas ainda não chegaram.
Temos uma picadora de gelo. Não funciona.
Temos um liquidificador. Funciona.
- Será que vai ficar bom?
- Coloca o gelo junto!
- Cadê a cachaça? - Ah, oi, já te cumprimento, peraí!
- Pronto, achei! Começa!
Vrrrrr, vrrrrr, vrrrrr
 - Prova, o que tu acha?
- Huuumm, muy rica!
- Vale, pues ya está?
Sirvo umas quantas caipirinhas.
Um chato que nunca tinha visto antes reclama que está amarga por causa da casca. É mentira.
Mas aí começo a descascar os limões espanhóis, que são nossas limas.
Mas não sei. Aprendo. Corto o dedo. Dói.
- Preciso de mais limas (nossos limões).
- Mas essa faca não corta.
Procuramos outra, não encontramos.
Meu dedo continua doendo, coloco um band-aid marca diabo.
Cai uma, duas, três e muitas vezes. Não posso mais cortar limões.
Mas corto.
- As bandeiras continuam aí? Ninguém roubou?
Não, tá tudo em ordem.
"O que a gente precisa é tomar um banho de chuva, um banho de chuva..."
- Ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, ai, aaaaii
- Gabriela! No tienes amigos! Dónde están?
- No sé, estoy decepcionada!
Corro eu, corre ela, corre a outra. Limas, limões, açúcar, gelo, cachaça e liquidificador.
- É muito doce essa caipirinha, dissem os espanhóis.
- Lo siento, pero es diferente.
- Pero está muy rica!
Onde estão meus amigos? Todos os convites e mensagens? Hummmm, não sei!
A noite vai passando, terminando, chiquichiqui, chiquichiqui. Alguns dançam, outros bebem.
E outros nem sequer aparecem.
Os doces ficaram ótimos, todos gostaram. Mas os bolinhos ficaram feios. Trouxe pra casa.
A noite termina. Limpamos tudo. As pernas doem, as costas também. Os braços, de tanto carregar caixar. Tiro as bandeiras, recebo meu dinheiro, valeu a pena, mas meu dedo dói.
E meu pensamento segue perdido, pergunto-me: por que?

As pessoas não apareceram. 

Durmo, acordo, como, posto, estudo e começo outra vez a ladainha. E meu dedo vai doer pra sempre.

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